Jornalista potiguar Octávio Santiago é finalista do Prêmio Vladimir Herzog
O jornalista e escritor potiguar Octávio Santiago é um dos finalistas da edição 2026 do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. O potiguar concorre na categoria livro-reportagem com a obra Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste, publicada pela Autêntica Editora. Entre os três trabalhos selecionados na categoria, o título assinado por Santiago é o único representante das regiões Norte e Nordeste a figurar na etapa final, disputando a indicação com as jornalistas Ana Paula Araújo (Agressão) e Cecilia Olliveira (Como nasce um miliciano).
A indicação conecta a maturidade de sua produção literária aos primeiros passos da carreira no jornalismo, iniciada ainda na infância em Natal, quando bateu à porta da redação do hoje extinto Diário de Natal. Eu sempre quis ser jornalista, desde os 13 anos com essa decisão. Bati na porta achando que diriam para eu voltar para casa e estudar, mas responderam então entre, e ali comecei a escrever e tive minha primeira matéria publicada, relembra o autor potiguar. A indicação ao prêmio, segundo ele, consolida o percurso construído ao colocar a própria região no centro discursivo de seu trabalho: Esse prêmio acaba fundindo duas paixões que me assinam, que são justamente o jornalismo e a literatura. Fico feliz porque é o Rio Grande do Norte que vai comigo, é o Nordeste que vai comigo e a gente faz junto.
A pesquisa que deu origem ao livro investiga o processo histórico de construção do preconceito contra a população nordestina. Ao iniciar o levantamento documental em jornais e livros antigos, o autor previa encontrar indícios sutis ou subentendidos, mas deparou-se com registros explícitos. Para minha surpresa, vi que não era uma questão de ilação. Tudo estava muito expresso mesmo, tudo colocado ali sem nenhum constrangimento. À medida que eu ia acessando esse material, percebi que isso não podia ficar só comigo, não podia ser só uma pesquisa acadêmica para ficar na gaveta. Tinha que ir para o mundo, relata.
Para transpor os achados históricos ao grande público de maneira acessível, o jornalista potiguar optou pela estrutura do livro-reportagem, buscando oferecer fundamentação crítica aos leitores. A obra teve cinco tiragens em apenas cinco meses de lançamento e ultrapassou as fronteiras regionais. Santiago participou, inclusive, de lançamentos na praça pública em São Paulo, enfrentando o desafio de debater o olhar do Sudeste sobre o Nordeste na própria capital paulista.
Criado em 1979 e gerido atualmente pelo Instituto Prêmio Vladimir Herzog, a premiação homenageia o jornalista torturado e morto em 1975 nas dependências do DOI-CODI, durante a ditadura militar, reconhecendo produções voltadas à defesa da democracia e dos direitos humanos. Para além da chancela oficial conferida pela premiação nacional, o escritor potiguar enfatiza que o diálogo estabelecido com o público leitor permanece como o objetivo principal alcançado. Para mim, o maior dos prêmios é ter o livro na mão de todos os leitores. É eu entrar num café, por exemplo, e encontrar uma pessoa lendo. A validação da categoria é muito positiva, mas a mensagem principal é ver que a história contada a partir de nós mesmos chegou às pessoas.
Enquanto concorre à premiação com o livro de estreia, o potiguar já se dedica à apuração de seu próximo projeto em parceria com a mesma editora. O novo trabalho envolve pesquisas de campo pelo interior nordestino para resgatar episódios e dinâmicas sociais da região. Queremos mostrar o Nordeste real, aquele que está no nosso entorno, sem a necessidade de responder a uma cartilha ou recorrer a caricaturas e estereótipos, conclui o autor.